Exercitando a liberdade 1: libertando os conservadores ou conservando os liberais?
No exato momento em que publicamos este texto, está ocorrendo a posse da chapa "Aliança pela Liberdade", que ganhou as últimas eleições para o Diretório Central dos Estudantes "Honestino Guimarães" da Universidade de Brasília.
Nós, dois alunos da Pós-graduação em Ciência Política da Universidade de Brasília e também ex-alunos de graduação da mesma instituição, resolvemos nos afastar um pouco do "falatório" em torno desta eleição - que foi, sem dúvida, controversa e democrática (e, ainda bem, os dois termos ainda podem ser sinônimos) - para observarmos o que pode significar este "movimento pendular" de eleição desta "nova" chapa.Nos propusemos a observar o movimento (a formação das chapas e o processo de eleição), as ideias ao redor do movimento (a disputa e as reações à eleição), e as propostas surgidas neste movimento.O exercício é meramente o de fazer uma reflexão crítica, para externalizarmos livremente uma opinião, a partir do nosso ponto de vista, nada mais.
Não estamos desenhando um novo programa e nem questionando o processo.
Não estamos nos posicionando em defesa de qualquer dos lados, mesmo porque acreditamos que política democrática não é uma questão de lado, mas de modo.
Iremos publicar, semanalmente, uma série de 5 textos para dar conta desse exercício de liberdade.
Em cada texto, vamos expor uma reflexão sobre um aspecto que consideramos relevante durante a observação.
Os textos podem ser lidos separadamente ou como um conjunto, e tratarão de temas tais como: as noções teóricas de conservadorismo e liberalismo; os efeitos do pragmatismo na política; como entendemos esse "movimento pendular"; a proposta de um DCE parlamentarista e possíveis consequências para a democracia; a possibilidade de entrada da polícia no campus como um dos preconceitos contra a política.
O fio que os conecta é justamente a nossa observação da eleição desta chapa, e nada mais.
Boas leituras!
Graziella Testa
Mateus Fernandes
Exercício 1:
Liberalismo vs. Conservadorismo
por Graziella Testa* e Mateus Fernandes**
A chapa "Aliança pela Liberdade" se diz "liberal", embora receba de outros a alcunha de "conservadora". Em que pese o fato de que, teoricamente, estes termos não são efetivamente sinônimos e de que, no contexto de seu surgimento, eram evidentemente antônimos, é preciso relembrar que a trajetória histórico-política brasileira fez que estes dois termos se aproximassem.Dessa maneira, ao rotular-se como "liberal", no contexto brasileiro, a chapa não pode desconsiderar esta trajetória e não pode fugir, a priori, das ressalvas que qualquer progressista se faz ao ver eleita para o DCE uma chapa que seja "liberal" (isto é, em nosso caso, potencialmente conservadora).
Se estas alcunhas nascem e se desenvolvem na Inglaterra ou nos Estados Unidos junto com a própria noção de representação, não é sem porquê que, nas condições tão diversas do Brasil, elas não guardem o mesmo peso que em sua gênese estrangeira.
Nada mais conservador que um liberal no poder. Nada mais liberal que um conservador na oposição.
Se Oliveira Viana descreveu assim a política dos tempos da Regência e do Segundo Reinado, não é estranho que um partido Social-Democrata no nome se coloque como "direita" no espectro político neste que é o mais longo período democrático de nossa história.
Talvez o que não se modifique seja a velha questão do juízo de valor, da política enquanto normatividade (e não como técnica, como “administração da coisa pública”). Para haver política é preciso que haja conflito, e a proposta normativa da chapa é clara (e é louvável que o seja): Liberdade.
Estaríamos diante de um daqueles momentos, como previu Tocqueville, em que o igualitarismo irrefreável necessitaria de alguém que velasse pela liberdade? O fato é que uma parcela dos estudantes, que antes não se sentia representada, agora se sente.
Mas o que pode significar, então, a suposta "renovação" pretendida por estes estudantes, que tangencia também a noção de "liberalismo" no contexto brasileiro?
Fizemos uma sugestão, entre a proposição séria e a atitude jocosa, de adotarem o termo, excessivamente teórico, de "neo-iluministas". (E não é que já tem gente usando a ideia?).
Mas o que seria isso afinal?
Bem, se o liberalismo e o iluminismo andaram, vez por outra, de mãos dadas, a referência é explícita e não demanda outras explicações...
Mas, além disso, como observamos que estes colegas nos parecem estar no afã progressista de empreenderem mudanças no movimento estudantil, como propõem medidas que quiçá resultem em melhorias da situação cotidiana da Universidade, como esperam "cultivar um futuro mais livre" (este é o slogan da chapa!) - bem, se pretendem tudo isso, então não nos parece que agem com espírito diferente do espírito que movia aqueles primeiros liberais-iluministas, dentre os quais figuraram Voltaire, Diderot, Rousseau, Thoreau e Kant (para citar um pouquinho de uma vastíssima gama de pensamentos distintos que poderiam partilhar de um mesmo "espírito livre" ou de um certo "titanismo fáustico" de que falavam Nietzsche e Goethe).
Mais ainda, os "neo-kantianos", como o jovem Heidegger e Hannah Arendt, embora apresentem sistemáticas diferenças entre seu pensamento político, abordam a força da crítica sem se vincularem ao marxismo.
Ou seja, são pensadores que levaram a crítica de maneira tão a sério quanto Marx, sem adotarem seus postulados comuno-socialistas.
E é então neste ponto que surge a proposta de simbiose entre o liberalismo político clássico de Voltaire e o neo-kantismo de Hannah Arendt - ou seja, quanto aparece a possibilidade, teórica, de um "liberal não-conservador".
Assim, os tais "neo-iluministas" seriam uns tipos bem estranhos, confessamos, que pretenderiam vincular a defesa inconteste das necessidades individuais sem abrir mão do necessário envolvimento coletivo, ou seja, do importante papel da interconexão entre temáticas, problemas e pessoas; enfim, sem abrir mão do há de mais humano no ser humano, isto é, seu aspecto de ser o criador da política como modo de relação interpessoal.
Mas será que presumir toda essa carga conceitual em um movimento como este é atribuir-lhe muito mais peso do que são capazes de suportar?
Isso é o que veremos no decorrer deste 1 ano de mandato...
* Graziella Guiotti Testa é bacharel e mestranda em Ciência Política pela UnB e pesquisadora do poder Legislativo Federal.
** Mateus Braga Fernandes é bacharel e licenciado em Filosofia, mestre e doutorando em Ciência Política pela UnB.





