Exercitando a liberdade 1: libertando os conservadores ou conservando os liberais?

No exato momento em que publicamos este texto, está ocorrendo a posse da chapa "Aliança pela Liberdade", que ganhou as últimas eleições para o Diretório Central dos Estudantes "Honestino Guimarães" da Universidade de Brasília.

Nós, dois alunos da Pós-graduação em Ciência Política da Universidade de Brasília e também ex-alunos de graduação da mesma instituição, resolvemos nos afastar um pouco do "falatório" em torno desta eleição - que foi, sem dúvida, controversa e democrática (e, ainda bem, os dois termos ainda podem ser sinônimos) - para observarmos o que pode significar este "movimento pendular" de eleição desta "nova" chapa.

Nos propusemos a observar o movimento (a formação das chapas e o processo de eleição), as ideias ao redor do movimento (a disputa e as reações à eleição), e as propostas surgidas neste movimento.
O exercício é meramente o de fazer uma reflexão crítica, para externalizarmos livremente uma opinião, a partir do nosso ponto de vista, nada mais.
Não estamos desenhando um novo programa e nem questionando o processo.
Não estamos nos posicionando em defesa de qualquer dos lados, mesmo porque acreditamos que política democrática não é uma questão de lado, mas de modo.

Iremos publicar, semanalmente, uma série de 5 textos para dar conta desse exercício de liberdade.
Em cada texto, vamos expor uma reflexão sobre um aspecto que consideramos relevante durante a observação.

Os textos podem ser lidos separadamente ou como um conjunto, e tratarão de temas tais como: as noções teóricas de conservadorismo e liberalismo; os efeitos do pragmatismo na política; como entendemos esse "movimento pendular"; a proposta de um DCE parlamentarista e possíveis consequências para a democracia; a possibilidade de entrada da polícia no campus como um dos preconceitos contra a política.
O fio que os conecta é justamente a nossa observação da eleição desta chapa, e nada mais.

Boas leituras!

Graziella Testa
Mateus Fernandes


Exercício 1:
Liberalismo vs. Conservadorismo

por Graziella Testa* e Mateus Fernandes**

Conservative_vs_liberal
A chapa "Aliança pela Liberdade" se diz "liberal", embora receba de outros a alcunha de "conservadora". Em que pese o fato de que, teoricamente, estes termos não são efetivamente sinônimos e de que, no contexto de seu surgimento, eram evidentemente antônimos, é preciso relembrar que a trajetória histórico-política brasileira fez que estes dois termos se aproximassem.

Dessa maneira, ao rotular-se como "liberal", no contexto brasileiro, a chapa não pode desconsiderar esta trajetória e não pode fugir, a priori, das ressalvas que qualquer progressista se faz ao ver eleita para o DCE uma chapa que seja "liberal" (isto é, em nosso caso, potencialmente conservadora).

Se estas alcunhas nascem e se desenvolvem na Inglaterra ou nos Estados Unidos junto com a própria noção de representação, não é sem porquê que, nas condições tão diversas do Brasil, elas não guardem o mesmo peso que em sua gênese estrangeira.

Nada mais conservador que um liberal no poder. Nada mais liberal que um conservador na oposição.

Se Oliveira Viana descreveu assim a política dos tempos da Regência e do Segundo Reinado, não é estranho que um partido Social-Democrata no nome se coloque como "direita" no espectro político neste que é o mais longo período democrático de nossa história.

Talvez o que não se modifique seja a velha questão do juízo de valor, da política enquanto normatividade (e não como técnica, como “administração da coisa pública”). Para haver política é preciso que haja conflito, e a proposta normativa da chapa é clara (e é louvável que o seja): Liberdade.
Estaríamos diante de um daqueles momentos, como previu Tocqueville, em que o igualitarismo irrefreável necessitaria de alguém que velasse pela liberdade? O fato é que uma parcela dos estudantes, que antes não se sentia representada, agora se sente.

Mas o que pode significar, então, a suposta "renovação" pretendida por estes estudantes, que tangencia também a noção de "liberalismo" no contexto brasileiro?

Fizemos uma sugestão, entre a proposição séria e a atitude jocosa, de adotarem o termo, excessivamente teórico, de "neo-iluministas". (E não é que já tem gente usando a ideia?).
Mas o que seria isso afinal?
Bem, se o liberalismo e o iluminismo andaram, vez por outra, de mãos dadas, a referência é explícita e não demanda outras explicações...

Mas, além disso, como observamos que estes colegas nos parecem estar no afã progressista de empreenderem mudanças no movimento estudantil, como propõem medidas que quiçá resultem em melhorias da situação cotidiana da Universidade, como esperam "cultivar um futuro mais livre" (este é o slogan da chapa!) - bem, se pretendem tudo isso, então não nos parece que agem com espírito diferente do espírito que movia aqueles primeiros liberais-iluministas, dentre os quais figuraram Voltaire, Diderot, Rousseau, Thoreau e Kant (para citar um pouquinho de uma vastíssima gama de pensamentos distintos que poderiam partilhar de um mesmo "espírito livre" ou de um certo "titanismo fáustico" de que falavam Nietzsche e Goethe).

Mais ainda, os "neo-kantianos", como o jovem Heidegger e Hannah Arendt, embora apresentem sistemáticas diferenças entre seu pensamento político, abordam a força da crítica sem se vincularem ao marxismo.
Ou seja, são pensadores que levaram a crítica de maneira tão a sério quanto Marx, sem adotarem seus postulados comuno-socialistas.

E é então neste ponto que surge a proposta de simbiose entre o liberalismo político clássico de Voltaire e o neo-kantismo de Hannah Arendt - ou seja, quanto aparece a possibilidade, teórica, de um "liberal não-conservador".

Assim, os tais "neo-iluministas" seriam uns tipos bem estranhos, confessamos, que pretenderiam vincular a defesa inconteste das necessidades individuais sem abrir mão do necessário envolvimento coletivo, ou seja, do importante papel da interconexão entre temáticas, problemas e pessoas; enfim, sem abrir mão do há de mais humano no ser humano, isto é, seu aspecto de ser o criador da política como modo de relação interpessoal.

Mas será que presumir toda essa carga conceitual em um movimento como este é atribuir-lhe muito mais peso do que são capazes de suportar?

Isso é o que veremos no decorrer deste 1 ano de mandato...

* Graziella Guiotti Testa é bacharel e mestranda em Ciência Política pela UnB e pesquisadora do poder Legislativo Federal.

** Mateus Braga Fernandes é bacharel e licenciado em Filosofia, mestre e doutorando em Ciência Política pela UnB.

Cidadãos inteligentes enriquecem juntos

“Qdo um país sabe quais são os seus problemas e nada é feito, é hora de chamar administradores e colocá-los no comando”. Lá vamos nós para o discurso da técnica. Política é conflito por definição, ainda que esse conflito seja velado, organizado, reprimido.

por Graziella Guiotti Testa*

Escher
O objetivo desse texto não é te ensinar como ficar rico. (Acabo de perder metade dos meus leitores mas vá lá). Também eu tenho lá meus problemas com dinheiro e foi pensando nisso que no meu ultimo ano de faculdade, graças ao sistema da UnB, tomei o curso de Finanças Pessoais. Desde então recomendo a todos que detenham algum tempo para pensar no tema e não estou nem falando em encontrar as melhores taxas para investimentos, mas no simples hábito de manter uma tabela de gastos. Enfim, tudo isso pra dizer que foi nesse tempo que conheci o trabalho do administrador e autor Gustavo Cerbasi, que se dedica a escrever livros sobre o assunto, e quem sigo no Twitter há alguns meses.

Qual não foi minha surpresa, portanto, quando me deparei com a citação reproduzida pelo meu guia financeiro (para os interados com o vocábulo: RT @StephenKanitz): “Qdo um país sabe quais são os seus problemas e nada é feito, é hora de chamar administradores e colocá-los no comando”. Lá vamos nós para o discurso da técnica. Antes que alguns digam que é marmelada, vou me justificar porque estou a ponto de citar (sem autoridade, mas com intimidade) meu velho amigo Max Weber. O processo de transição do pensamento Ocidental para o que se chamou de Modernidade, como algumas vezes já tratei aqui no blog, é caracterizado pela substituição do pensamento dogmático religioso por um conhecimento mais sistematizado, ou seja, de racionalização.

Se esse processo se inicia a mais de 500 anos, foi no início do século XX que Weber escreveu acerca dessa racionalização e os reflexos na política. Ele vai falar da transição do que chamou de patrimonialismo, um sistema onde a administração pública dependeria dos favores do senhor e, portanto, seria caracterizada pela ausência de impessoalidade ao sistema racional/legal, onde os servidores seriam escolhidos segundo sua capacidade técnica de exercer a função que deles é esperada. É o processo de separação do Estado da pessoa do governante, de valorização da instituição antes de tudo. O que falta dizer aqui é que Weber separou claramente o técnico do político.

Isso é porque o elemento conflitivo não pode ser separado do que se entende por política. Política é conflito por definição, ainda que esse conflito seja velado, organizado, reprimido. Isso porque numa sociedade complexa de pessoas tão diferentes, não existe um “bom” que seja comum a todos: os indivíduos se dividem quanto a juízo de valor; para não falar na alocação dos impostos: beneficiar a uns significa não beneficiar a outros. Com todas as diferentes definições que se pode dar à democracia representativa, é possível dizer que ela comporta o conflito e o soluciona por meio do sistema da maioria (o pior dos sistemas, em detrimento de todos os outros).

Ainda que seja muito difícil definir o que é democracia, é mais fácil saber o que não é. Colocar administradores no comando é sinônimo de matar as diferenças presentes na sociedade e assumir que existem pessoas que entendem melhor do que as outras o que seria “melhor para todos”. A frase pode soar bonita porque imaginamos anjos descendo do céu (nos seus ternos e gravatas, com a pasta na mão) para ensinar ao povo brasileiro, que “não sabe votar”, o que é melhor pra ele. O processo de deslegitimação do parlamento e de tudo que se entende por político é um fantasma que não deixa de assombrar um país que ainda sofre as conseqüências de uma ditadura que se confirmava no poder baseada nesse mesmo discurso da técnica, assumindo a forma do crescimento econômico.

Pois bem: fiz um café; respirei fundo; atualizei minha tabela de finanças pessoais; e me olhando no espelho constatei que está de volta aquela minha ruga da testa de preocupação com o futuro da América Latina com essa crescente deslegitimação das instituições políticas tradicionais e a crescente ascensão do gigante autoritário do Oriente. Quase senti saudades antecipadas dos EUA como potência. Quase.

 

*A imagem representa uma xilogravura do Escher chamada Still Life and Street

 

Reprodução dos tweets citados:

@gcerbasi RT @StephenKanitz Qdo um país sabe quais são os seus problemas e nada é feito, é hora de chamar administradores e colocá-los no comando.

@grazigt @StephenKanitz @gcerbasi Cuidado p/ não confundir finanças pessoais com política, @gcerbasi, da ultima vez quem fez isso foram os militares.

(DM) @gcerbasi @grazigt Antes das Finanças Pessoais vem a cidadania. E não devemos esquecer que vivemos em um país em que confundem Gestão Pública com política.

@grazigt @gcerbasi A qualidade do gasto público é melhor para todos, concordo nesse sentido, mas sem esquecer que gestão é o resultado de um processo de tomada de decisão político - e democrático. (Admiro muito seu trabalho!)

(DM) @gcerbasi @grazigt Quando a política toma os rumos que tomou no Brasil, não vejo como resultar em uma gestão eficiente. É impossível.

@grazigt @gcerbasi Se é impossível, não há que se falar em cidadania. (Muito democrático da sua parte me mandar DM sem que eu possa te responder)

 

Quanto custa ser potencia?

O National Cancer Institute gasta pouco menos de cinco bilhões por ano com pesquisas sobre o câncer, ou 0,7% dos gastos militares. Isso significa que os gastos militares de um ano equivalem aos gastos com pesquisas sobre câncer do NCI durante 170 anos.

por Gláucio Soares - IESP/UERJ*

Nueva_imagen

A hegemonia militar tem preço. Não sai barato. Os Estados Unidos gastaram, em 2010, 698 bilhões de dólares com os militares, a preços constantes de 2009. 

Isso é muito ou pouco? O leitor pode responder a essa pergunta, de posse de alguns dados. Quem levanta, confere e organiza esses dados? Várias agências, mas talvez a mais confiável seja a SIPRI, localizada em Estocolmo. De acordo com o SIPRI, o segundo colocado nos gastos é a China, com 114 bilhões. Ou seja, menos de seis vezes. Mesmo assim, a China também gasta muito, em cifras absolutas: aproximadamente o dobro da França, o terceiro país mais gastador, exatamente o dobro do Reino Unido e mais do dobro da Rússia, outrora parte central da poderosa, ameaçadora e, comparativamente, pobre União Soviética.

Depois dos Estados Unidos, os dez países que mais gastam, em termos absolutos (sempre em dólares constantes de 2009), são a China, a França, o Reino Unido, a Rússia, o Japão, a Alemanha, a Itália, a Arábia Saudita, a Índia e...o nosso Brasil. Gastamos mais do que a Coréia do Sul, o Canadá, a Espanha...

Pois bem, esses dez países (inclusive a China), somados, representam 523 bilhões de dólares, menos do que os Estados Unidos. Gastam 75% do que os Estados Unidos gastam.

Como se paga a hegemonia militar? Todos os anos ela custa quase 5% do PIB. Noutros países desenvolvidos ela pesa menos: de 1% no Japão a 2,7% no Reino Unido.

Ela se paga, parcialmente, aumentando a dívida pública e, também parcialmente, reduzindo outros gastos, alguns considerados mais importantes. Mas isso tem custos.

Dia 5, o crédito do governo dos Estados Unidos baixou, pela primeira vez na história, de AAA para AA+. É um sistema usado pela Standard & Poor's e a baixa não quer dizer que os Estados Unidos não pagarão suas dívidas. Em parte o problema é político, porque a rolagem, que era quase automática, só foi aprovada na última hora, numa jogada claramente política. Mas o problema existe.

A dívida pública não nasceu com Obama; ela aumentou nas guerras mundiais e foi gradualmente reduzida depois. Como percentagem do PIB, a dívida cresceu aceleradamente nas décadas de 80 e 90: triplicou entre 1980 e 1990. A Guerra Fria foi um das causas. Diminuiu quando ela terminou e voltou a crescer. Em 2008, a dívida pública tinha chegado a US $ 10, 3trilhões, ou dez vezes o nível de 1980. O crescimento da dívida fez com que um teto fosse aprovado, mas passou a ser mudado de acordo com as conveniências - todos os anos e sem problemas. Esse ano foi negociado e renegociado, com intenções que, para mim, são claramente eleitoreiras.

Há outros custos, no meu entender, muito maiores, medidos em anos de vida perdidos e em sofrimento. 

O NIH é, de longe, a maior financiadora de pesquisas na área da saúde. Podemos ler no site do NIH: "o NIH investe... US $32,2 bilhões anualmente na pesquisa médica para o povo americano." Menos de sete por cento do que gastam anualmente com as Forças Armadas. 

Tomemos o câncer, o segundo maior assassino da população americana, como exemplo: nos Estados Unidos, o National Cancer Institute (NCI), parte dos National Institutes of Health and the Department of Health and Human Services coordena muitas pesquisas sobre o câncer e uma das instituições que, no setor público, financiam pesquisas sobre o câncer. 

O NCI gasta pouco menos de cinco bilhões por ano com pesquisas sobre o câncer, ou 0,7% dos gastos militares. Isso significa que os gastos militares de um ano equivalem aos gastos com pesquisas sobre câncer do NCI durante 170 anos. O orçamento anual do NCI é da mesma ordem de grandeza da construção de um porta-aviões, o Ronald Reagan.

Nos Estados Unidos, aproximadamente mil e quinhentas pessoas morrem de câncer todos os dias; por ano são perto de 570 mil pessoas - mais de meio milhão. Em toda a guerra do Iraque até o dia 18 de julho recente, morreram em combate 3.529 soldados americanos. O equivalente a pouco mais de dois dias do número de mortes de cancerosos nos Estados Unidos, onde uma em cada quatro pessoas deverá morrer de câncer.

Pesquisa e tratamento ajudam! Em 1975/77, de cada cem pessoas diagnosticadas com câncer, cinqüenta estavam vivas cinco anos mais tarde; mas entre os diagnosticados entre 1998 e 2005, 68% estavam vivos cinco anos depois. Um ganho de 13% em um quarto de século. Milhões de vidas. 

Quantos sobreviveriam se houvesse um corte de dez por cento nos gastos militares, e esses recursos (quase 70 bilhões de dólares anuais) fossem transferidos para a pesquisa, prevenção e tratamento do câncer? Afinal, estaríamos gastando quatorze vezes mais, todos os anos. 

O meu chute: em dez anos, vários cânceres estariam na categoria de doenças crônicas e muitos outros teriam uma cura bem mais fácil do que agora. Milhões de vidas americanas seriam salvas em uma década. É, ser potência custa caro! Em vidas humanas também.

 

*Publicado sem foto no Correio Braziliense

Sófocles e Dilma

A arte tem a prerrogativa de indagar e trazer à baila questões de forma mais sutil e com maior potencial de mudança que qualquer outra manifestação. A “resposta” a uma peça teatral, a uma musica, a uma poesia, a uma pintura pode até ocorrer, mas ela nunca terá o alcance de um instrumento que vai além da pura racionalidade. 

por Graziella Guiotti Testa*

Antigona
O texto de hoje não é sobre política, o texto de hoje é sobre arte. Sempre tive em boa conta pessoas que gostam de teatro. Não que não me atraiam as outras formas de arte mais “corriqueiras”, tais quais ouvir uma boa música ou assistir a um clássico do cinema. O teatro tem um quê de único e de privilégio: aquele(s) ou aquela(s) ator(es) está(ão) ali somente para aquele grupo de pessoas assistirem, numa peça que é única, nunca duas apresentações de um mesmo espetáculo serão absolutamente iguais – e exclusividade é luxo na era da massificação, da quantidade e do consumismo. Já fui muito crítica em relação à cena teatral brasiliense, tanto local quanto em capacidade de trazer espetáculos de outros estados e países – a exceção sempre foi o Festival Internacional Cena Contemporânea, que infelizmente só ocorre uma vez por ano. De alguns anos pra cá, no entanto, muitas das produções de grande qualidade têm alcançado o planalto central, graças a iniciativas provenientes de lideranças ligadas à cultura em Brasília e de investimentos públicos, por meio dos centros culturais do Banco do Brasil e da Caixa – sempre a preços baixos.

O teatro tem sua gênese mais reconhecida na Grécia antiga, ao mesmo tempo em que nasce a democracia, momento em que a fidelidade se transfere do clã para a pólis. Uma tragédia em específico reflete essa profunda interação da política com a tragédia, Antígona e Creonte, de Sófocles. A história gira em torno do desejo de Antígona de enterrar seu irmão. Morto em batalha contra o terceiro irmão, Policies é condenado por Creonte – o tio dos três que assume o poder após a morte dos dois irmãos em batalha – a ser abandonado às aves de rapina, por não considerá-lo digno de receber enterro dentro da cidade de Tebas. O posicionamento de Creonte é orientado no sentido de seguir as leis de Tebas a despeito do laço familiar.

Antígona, no entanto, desrespeitando o decreto de seu tio e imperador de Tebas, opta por enterrar o corpo de seu irmão e sofrer as conseqüências. Confesso que no primeiro ano de faculdade é difícil entender a riqueza dos questionamentos – sempre os questionamentos – presentes na tragédia de Sófocles, mas ao observar o desenvolvimento da teoria política, é possível encontrar sementes de boa parte das principais questões: clã X pólis; público X privado; impessoalidade X personalismo; igualdade X liberdade; direito natural X positivo – não vou conseguir esgotá-las. Já tive a oportunidade de assistir a três diferentes montagens de Antígona e Creonte. Curiosamente, nenhuma delas me agradou. Minha leitura de Antígona e Creonte sempre foi balizada pelo dilema. O foco está no questionamento, não existe certo ou errado, existe a questão que é posta e da qual não se pode fugir.

A arte tem a prerrogativa de indagar e trazer à baila questões de forma mais sutil e com maior potencial de mudança que qualquer outra manifestação. A ditadura militar brasileira é o exemplo mais óbvio e que não pode ser negligenciado. A “resposta” a uma peça teatral, a uma musica, a uma poesia, a uma pintura pode até ocorrer, mas ela nunca terá o alcance de um instrumento que vai além da pura racionalidade. Não estou dizendo que toda arte deve ser “engajada”, a beleza da arte que traz a crítica política está justamente na ausência da obrigação, é um afloramento do que está latente – o cinema europeu pós-guerra é um grande exemplo.

Pois bem, esse sábado, como em muitos outros, fui ao teatro ter o privilégio de presenciar o monólogo de um dos grandes mestres dos palcos brasileiros, Chico Diaz, com texto de outro grande nome da narrativa surrealista nacional, Campos de Carvalho, A Lua Vem da Ásia. O questionamento da loucura é assustador porque atinge a todo ser humano e falar da grandeza do ator é dispensável. O curioso da minha noite de sábado a noite foi encontrar a Presidenta Dilma Roussef em meio ao público, com um único segurança. Prestigiar o teatro nacional não pode ser um indício ruim. Política à parte, bom gosto teatral, Presidenta. O texto de hoje não é sobre política, o texto de hoje é sobre arte.

 

http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/a-presidente-no-teatro/

Mais sobre Antígona e Creonte

Infelizmente, não consegui encontrar referência da pintura na web. Se alguém souber me dizer, ficarei feliz.

 

 

 

O valor do ladrãozinho de arrabalde

Carta enviada à redação da Carta Capital 

por Leonardo Augusto Balthar de Souza Santos*

 

40

Talvez Cesare Battisti seja o ladrãozinho de arrabalde mais custoso que já existiu. Afinal, por ele, Mino Carta está colocando em questão a reputação da Revista Carta Capital, um dos poucos meios de comunicação ainda considerados sérios na seara midiática brasileira.

Tudo começou com a edição 633 da Carta, na entrevista do Ministro de Relações Antonio Patriota. Em um dado momento, surge a pergunta sobre Cesare Battisti. Os leitores contumazes da Carta sabiam que ali haveria o contraditório aos inúmeros editoriais de Mino e Maierovitch, ambos explicitamente favoráveis à extradição do italiano.

Qual não é a surpresa quando, ao invés de uma resposta, surge um infame box cinza, com um comentário de alguém da revista – a repórter ou o próprio editor-chefe, não se sabe -, dizendo que o ministro deu uma “resposta padrão” e que logo em seguida se contradisse. Ponto. Foi isso que a Redação nos ofereceu: a censura à resposta de Patriota e o não acesso ao contraditório de uma posição fortemente defendida pela revista. Quem diria, a Carta Capital fazendo esse tipo de coisa...

Durante a semana, críticas foram feitas no Twitter, comentários foram postados no site da revista, emails foram mandados para a Redação. De nada serviram. O fato foi solenemente ignorado na edição seguinte, a 634. Na seção de cartas, nem uma única palavra sobre o assunto. Nas reportagens internas, nada foi falado. Nem um pio. Não censurou somente uma vez, censurou duas vezes. Logo a Carta Capital.

Em editorial na última edição, Mino volta mais uma vez a tratar do tema Battisti. Critica a posição do governo Lula, fala mal do italiano e não cita uma linha sobre o porquê da censura à resposta do ministro de Relações Exteriores. É com isso que a Redação da Carta Capital presenteia seus leitores: a censura e o fingimento de que nada está acontecendo. Escondem vergonhosamente o contraditório. E por quê? Medo de perderem no debate honesto? Mera intolerância a opiniões divergentes? Outros interesses que não podem ser expostos aos simples leitores, brindados com uma interpretação dos editores sobre as palavras do Ministro?

Eis um vexame que a Carta não precisava estar passando. Por todo o histórico de reportagens e posturas anti-hegemônicas, causa espanto, desconforto e vergonha aos leitores saber que a diferença entre Carta e a grande mídia conservadora não é tão grande como nós esperávamos. E isso tudo somente por causa de Cesare Battisti. Mino, ele vale mesmo isso tudo? Não seria a credibilidade da revista um valor alto demais a ser pago?

Reforço o pedido anterior: publiquem a resposta de Patriota, justifiquem-se sobre o motivo do box cinza e digam por que nada foi falado na última edição. O silêncio da 634, somado à censura na 633, é um constrangimento atroz para todos nós.

 

*Mestrando pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília

Desnorteados pelo Leste: O defunto era maior

A simplificação dos motivos das contentas por muito tempo gerou análises políticas rasas e importadas – com aquele jeitinho de “o defunto era maior”, centradas no modelo econômico em detrimento de outras características, locais e de diferentes ordens, freqüentemente mais importantes.

por Graziella Guiotti Testa*

Old-world-map-copy

Poucas coisas são mais azucrinantes do que discursos ou textos que começam por explicar detalhadamente porque vivemos num mundo multipolar (e da queda do famoso muro). Durante boa parte da segunda metade do século XX, os diferentes lados dos conflitos ao longo do globo tenderam a se alinhar à clássica dicotomia capitalismo X socialismo – ou Estados Unidos e União Soviética.  A simplificação dos motivos das contentas por muito tempo gerou análises políticas rasas e importadas – com aquele jeitinho de “o defunto era maior”, centradas no modelo econômico em detrimento de outras características, locais e de diferentes ordens, freqüentemente mais importantes.

A tentativa de importar modelos estadunidenses objetivando analisar as mais diversas situações e conflitos políticos é em parte resultado de um massivo investimento do governo americano a partir da década de 20 e 30 do século XX nas áreas da ciência política e da economia. Bem, o muro caiu (cá estou escrevendo sobre as coisas que repudio ler): nasce a idéia da multipolaridade e vai ficando mais difícil vestir o rapaz com as roupas do defunto. Em outras palavras, talvez não seja o fim da história, mas só o fim dessa maneira de enxergarmos o mundo. Recém-chegado da China, o Professor Philippe Schmitter – um dos maiores cientistas políticos vivos – falou essa semana em São Paulo do intuito do governo chinês em dar prioridade acadêmica (que significa dinheiro, que significa pesquisadores , que quase sempre significa pesquisa) ao campo da Ciência Política na China.

Mas vamos com calma: estímulo ao estudo da Ciência Política num ambiente autocrático, foi isso mesmo que eu entendi? Para essa sentença fazer sentido há que se alargar algum desses conceitos: ciência política ou autocracia. Adotando a hipótese – de difícil refutação – de que o governo chinês não pretende mudar o que nós entendemos por autocracia, estamos falando de uma ciência política que não enxerga a democracia como sendo axiologicamente superior à autocracia. Pausa para o susto e para recuperar a respiração. Decerto que a academia chinesa não poderá adotar a ciência política tipicamente estadunidense, profundamente quantitativa – que exigiria dados que na maior parte das vezes não existem na China; e tão centrada no tema das eleições – precisa explicar? Quiçá isso gere na academia do Oeste a volta da reflexão filosófica acerca do juízo de valor positivo da democracia e, mais do que isso, de qual democracia estamos falando.

As inquietações no mundo árabe seguem a mesma linha de suscitar o debate no Ocidente: temos autoridade para dizer que aquele povo, escolhendo um governo demasiadamente violente ou avesso ao Ocidente, escolhe mal? As eleições ainda ocupam o centro do que entendemos por democracia (para retomar o defunto da democracia liberal teorizada nos EUA)? Apesar de tudo, me tranqüiliza esperar que o Leste traga à tona um tema que parece estar adormecido no Sul: a necessidade de se entender as peculiaridades locais em detrimento de simplesmente adotar modelos importados – nas categorias de análise e na própria construção das instituições políticas. A China, completava o Professor Schmitter, não pretende fazer uma ciência política americana – pelos motivos que já ressaltamos; nem pretende fazer uma ciência política chinesa, rejeitando tudo o que foi feito até então. O que a China pretende é fazer uma ciência política com características chinesas.

Destarte as preocupações quanto à relativização da democracia enquanto fim (valor) em si mesma, quem sabe o Oriente não pode nos ajudar, nós do Sul, a abrirmos os olhos?

 

* Whathever Happened to North-South? IPSA-ECPR joint Conference hosted by ABCP at USP

* Entrevista com o Professor Philippe Scmitter (grande, mas interessante)

Para assistir:

Hotel Ruanda

Para Ler:

O Vulto das Torres

Morte e Vida Severina

Do porquê é diferente falar de política na América Latina.

Monólogo final de Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto*

Portinari_retirantes

- Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.


- E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

 

*Escute aqui o poema recitado

*Escute aqui Funeral de um Lavrador, musica de Chico Buarque

*Imagem: Retirantes, Candido Portinari, 1944, Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

 

A Caixa de Pandora e o Plenário da Câmara

Com toda a dificuldade de se encontrar uma acepção que abarque tudo aquilo que a democracia comporta, acredito que o mais próprio da democracia é que ela é essencialmente humana: nada mais, nada menos.

por Graziella Guiotti Testa*

Waterhouse_pandora

Caros amigos, o espetáculo da democracia supera a imaginação dos maiores dramaturgos que já nos presentearam com suas obras. Coroando a semana de manifestações, a população egípcia deliciou o resto do globo indo às ruas e pedindo a renúncia de Hosni Mubarak, no poder há 30 anos. No imaginário latino-americano, a imagem do povo se mobilizando em prol de uma causa chega a arrepiar os pêlos do braço - quase conseguimos escutar Geraldo Vandré cantando ao fundo caminhando e cantando... - mas, no Brasil, tendemos a considerar que tudo que se relaciona com política depois da redemocratização tem uma aura menos divina e mais diabólica. Então: as pessoas protestam quando querem ver apenas seus interesses egoístas realizados; estudantes se mobilizam por causa da farra e por não terem mais o que fazer; deputados e senadores enxergam na política uma oportunidade de legislarem em seu interesse ou das grandes empresas que pagam sua campanha e seu segundo salário.

Se vista de longe a semana de protestos e manifestações no Egito nos leva a idealizar um milhão de pessoas dispostas a morrer pelo ideal da democracia enquanto governo do povo, talvez estejamos sendo cruéis com nossos conterrâneos e gentis com tudo o que vem de fora – aqui acrescento o frisson da eleição de Obama: Yes, we can!. Com toda a dificuldade de se encontrar uma acepção que abarque tudo aquilo que a democracia comporta, acredito que o mais próprio da democracia é que ela é essencialmente humana: nada mais, nada menos - nem divina, nem diabólica. Que me perdoe Platão, mas a proposta mais pura da democracia não reza que o governante seja o Rei-Filósofo, capaz de captar e entender antes e melhor que o resto das pessoas o que é melhor para elas, mas é um cidadão igual a todos os outros, uma vez que no coração do ideário democrático repousa impávido o ideal da igualdade.

E se a democracia é o que almejamos e admiramos quando vemos lá fora – ou de longe, quando pensamos na Passata dos Cem Mil, em 1968, por que sempre a colocamos em cheque quando estamos falando de nossos atuais governos? A cobertura da mídia na posse dos deputados na Câmara Federal e na eleição do Presidente da Mesa para o próximo biênio é um clássico exemplo. Na configuração institucional que vive o Brasil, carente de reformas e estruturações das quais todos se omitiram desde a Constituição de 1988, o principal foco da mídia na 54ª Legislatura foi no Deputado Tiririca e a suposta ignorância ou inconseqüência dos que o elegeram. Isso num parlamento que tem 76 congressistas respondendo ação penal no Supremo!

Caros amigos, a caixa que Pandora abriu continha todos os males que são potenciais ou latentes no Homem – no sentido de pessoa humana. Assim também, o Parlamento dificilmente será muito diferente dos males que já se encontram na sociedade. É até bizarro que não seja. Numa sociedade misógina e machista, natural que quase não haja representantes mulheres no Legislativo; nossa herança coronelista e de regionalismo político exacerbado permite que muitos parlamentares sejam a terceira ou quarta geração de políticos na família, ou que um deputado se reeleja pela 11ª vez. O fato é que as profundas desigualdades presentes no Brasil e cotidianamente naturalizadas por nós todos começam a se escancarar no Plenário da Câmara: ao lado de conhecidos intelectuais, ex-presidentes de grandes empresas, latifundiários donos de estados quase inteiros, encontramos semi-analfabetos que se utilizam de capital midiático para ascenderem.

Afinal, os latifundiários, intelectuais e empresários, representam qual parcela da população brasileira? E os semi-analfabetos? Não pode ser a toa que aquela que possui todos os dons (panta dôra) seja também aquela que traz todos os males para o mundo. Se a democracia é nosso objetivo, saibamos que ela vem escancarando aquilo que já estava presente na sociedade e que tentávamos a todo custo nos esquivar. E é bom que seja assim. Não deixemos escapar a esperança.  

 

**Imagem: Pandora John William Waterhouse, 1896, coleção particular

 

 

 

PresidentA é feio? E quem falou que tem que ser bonito?

O fato é que, no twitter, no nome da vice-primeira-dama Marcela Temer figurou entre os tópicos mais comentados acima do próprio nome da presidentA Dilma Roussef e o posterior comentário do vice-presidente pemedebista foi emblemático: “Ela é discretíssima. É minha mulher e mãe do meu filho”

por Graziella Guiotti Testa*

Presidenta

Caros amigos, pensei numa imensa diversidade de temas para escrever essa semana, mas a cobertura da mídia na posse – e as repercussões no twitter – não saíram da minha cabeça. Não sou especialista em gênero e nem muito simpática ao uso do @ em substituição do masculino, mas a maneira como a cultura política brasileira encara mulheres em cargos públicos – o “público" – evidencia diversas outras práticas que por tanto tempo resolvemos com a simples suposição de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”.

O fato é que, no twitter, no nome da vice-primeira-dama Marcela Temer figurou entre os tópicos mais comentados acima do próprio nome da presidentA Dilma Roussef e o posterior comentário do vice-presidente pemedebista foi emblemático: “Ela é discretíssima. É minha mulher e mãe do meu filho”. Que alívio, ao menos alguém sabe encontrar o seu lugar no meio de toda essa bagunça. Esposa e mãe. Ufa...

Esse tipo de acontecimento sempre me leva a colocar em jogo a questão da representação política e me lembra a discussão proposta pela teórica política alemã Hanna Pitkin, para quem a representação não pode se restringir à visão formalista, ou seja, não importa quem seja o representante, desde que se estabeleça uma relação fecunda entre o indivíduo que é representado – principal – e seu representante – agente. Para Pitkin, é preciso que a representação seja também em alguma medida descritiva. Ou seja, não basta que os representantes prestem contas aos que o elegeram, é preciso que o corpo de representantes se configure num microcosmos da sociedade, com todas suas parcelas de minorias e grupos.

A contribuição da estadunidense Iris Marion Young foi além. Ao tratar da representação política, a teórica assumiu que, com a modernidade, veio a profunda diversificação da sociedade e, assim, não existiria uma “vontade do povo” per se, una. O que há são diferentes grupos e a discussão que interessa é de que maneira pode-se estabelecer uma relação entre esse todo social e entre o representante – que não é mais como o resto da sociedade, agora é distinto – e os representados. Como estabelecer essa conexão? Para ela, os indivíduos devem buscar que seus representantes sustentem suas opiniões, interesses e perspectivas.

Os interesses dizem respeito a questões predominantemente econômicas, como um deputado que busca uma emenda no orçamento- fantasia. As opiniões diriam mais respeito a princípios e valores, como um dos muitos deputados evangélicos que ocupam cadeiras no parlamento brasileiro. Por fim, e o que entendo como sendo o centro da representação descritiva, é preciso que o representante partilhe a perspectiva social com seus representados.

Ainda que uma estrutura social não determine a identidade dos indivíduos, eles estão nitidamente localizados em lugares dentro das estruturas sociais. Assim, o simples fato de ser negro não determina que dois indivíduos se reconheçam primordialmente como tais, mas é bem provável que ambos já tenham sido confundidos com o porteiro do prédio. Assim também, o simples fato de ter nascido mulher não determina que duas individuas sejam esposas e mães, mas é muito provável que ambas tenham sofrido assédio sexual.  

É desse tipo de representação que ainda carecem os brasileiros e brasileiras. A perspectiva não determina que o representante vá agir dessa ou daquela maneira, caso contrário Vanessa Grazziotin e Katia Abreu sempre votariam juntas, mas estabelece uma nova forma de conexão entre representantes e representados e ajuda a costurar novas relações dentro da própria sociedade. Mas esse é um processo lento e preguiçoso, nós sabemos bem. Por hora, tranqüilizemo-nos: temos uma presidentA, mas nossa vice-primeira-dama é discretíssima, mulher e mãe.

*Bacharel e mestranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília, pesquisadora do poder Legislativo Federal

** A foto foi uma excelente sugestão do @, pena eu não ter conseguido encontrar os créditos.

Para ler:

"Feminino", coluna do Professor Sírio Possenti

"Representação: palavras, instituições e idéias" Hanna Pitkin

"Representação política, identidade e minorias" Iris Marion Young

Para assistir:

O Sorriso de Monalisa (2003)

Milk (2008)

Invictus (2009)

De que serve a bondade?

 

Nada melhor do que as indagações do Brecht pra terminar o ano e pensar no depois. Deixo-vos com o mestre.

 Bertold Brecht*

Brecht

De que serve a  bondade
Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?

Em vez de serem apenas bons, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor: que a torne supérflua!

Em vez de serem apenas livres,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

(Bertold Brecht, in "Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas"; Tradução de Paulo Quintela)

 

*Dramaturgo e poeta alemão: http://en.wikipedia.org/wiki/Bertolt_Brecht